O SURGIMENTO DA UMBANDA NO BRASIL – PARTE II

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Dando continuidade ao nosso assunto, vamos refletir sobre a história da fundação oficial da Umbanda no Brasil propriamente dita e aproveitar os fatos relatados para ressaltar alguns pontos chaves dos fundamentos da doutrina Umbandista trazidas pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas.

As diversas manifestações de espíritos com a forma de índios e pretos-velhos vinham se dando de forma cada vez mais freqüente nos diversos meios onde havia algum tipo de espiritismo. No meio da religião africana foram essas manifestações que deram origem ao Candomblé de Caboclos, já no ambiente Kardecista esses espíritos não encontraram a mesma receptividade nos praticantes. Todos esses eventos nos dão indícios de como o Astral estava em movimentação tentando encontrar o meio mais adequado para a equalização de questões que precisavam ser resolvidas, foi dessa maneira que a Confraria dos Espíritos Ancestrais* (denominação utilizada por Matta e Silva**) foi se organizando e preparando o terreno para o advento de uma “nova” doutrina.

A história da fundação oficial da Umbanda começa em 1908 no estado do Rio de Janeiro onde o jovem Zélio Fernandino de Moraes com 17 anos foi levado por familiares à Federação Espírita de Niterói para atendimento por motivos que, supunham seus familiares, eram de saúde. Zélio foi convidado para se juntar a mesa de trabalho e tomado por uma força estranha disse: “aqui está faltando uma flor!”. Dessa maneira saiu porta a fora e foi até o jardim, voltando com uma flor que foi colocada ao centro da mesa. Quando se deu o início dos trabalhos se manifestaram espíritos de índios e de anciãos que diziam terem sido escravos.

Aqui temos o primeiro evento relevante com a manifestação coletiva de espíritos, que até então não eram comuns àquele tipo de sessão, percebe-se nos relatos que o ambiente de prática espírita Kardecista fora modificado pela presença de uma flor. Sabemos que o mundo dos espíritos é o mundo das energias sutis e, nesse caso, a presença da flor modificou energeticamente a condição vibratória do local, criando as condições necessárias para a manifestação de espíritos que até então não seriam intencionalmente invocados. A flor representou um elemento mágico de ligação com as energias da natureza, fundamentando o caráter astro-magnético das forças movimentadas pelos espíritos na Umbanda.

O diretor dos trabalhos não aceitando tais acontecimentos exigiu que os espíritos em manifestação fossem embora, pois pelo seu modo de proceder e comunicar visivelmente não tinham condições evolutivas aceitáveis para os trabalhos que se faziam necessários naquele recinto. Foi quando novamente Zélio se manifestou ao dirigente com as seguintes palavras: “Porque repelem a presença desses espíritos, se nem sequer se dignaram a ouvir suas mensagens. Será por causa de suas origens sociais e da cor?”. A discussão continuou exaltada quando uma médium vidente o questionou não entendendo porque defendia as manifestações de espíritos atrasados quando o mesmo, segundo suas percepções, era um jesuíta envolto em uma alva aura de luz e queria saber ainda qual o nome do irmão com quem travavam tal dialogo, a resposta foi: “Se querem um nome, que seja este: sou o Caboclo das Sete Encruzilhadas, porque para mim, não haverá caminhos fechados”. Nesse momento o Caboclo revela mais uma prática que seria a base para a identificação dos espíritos na Umbanda, que em vez de nomes próprios as entidades utilizariam nomes que identificariam mais sua função no astral do que uma personalidade. Como exemplo disso a própria ação do Caboclo das Sete Encruzilhadas naquele momento refletia seu nome, pois estava abrindo os caminhos espirituais e terrenos para toda uma gama de espíritos e lançando as bases para um modelo de culto que nos próximos momentos iria atrair um grande número de pessoas em diversos segmentos da sociedade.

Continuando a sua explanação sobre o assunto esclarece: “Se julgam atrasados os espíritos de pretos e índios, devo dizer que amanhã (16 de novembro) estarei na casa de meu aparelho, às 20 horas, para dar início a um culto em que estes irmãos poderão dar suas mensagens e, assim, cumprir missão que o Plano Espiritual lhes confiou. Será uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados e desencarnados”. Novamente reafirma a necessidade de trabalho para um grande número de espíritos e para isso se tornar viável estava naquele momento com ordens diretas de uma realidade espiritual superior para no dia seguinte lançar as bases e fazer acontecer um novo culto onde a principal característica seria o conforto aos humildes e a igualdade de trato e consideração entre os vivos e os mortos. E ainda esclarece com grande propriedade: “Deus, em sua infinita Bondade, estabeleceu na morte, o grande nivelador universal, rico ou pobre, poderoso ou humilde, todos se tornariam iguais na morte, mas vocês, homens preconceituosos, não contentes em estabelecer diferenças entre os vivos, procuram levar essas mesmas diferenças até mesmo além da barreira da morte. Porque não podem nos visitar esses humildes trabalhadores do espaço, se apesar de não haverem sido pessoas socialmente importantes na Terra, também trazem importantes mensagens do além”.

No dia seguinte e na hora marcada o Caboclo se manifesta e fundamenta mais uma vez o novo modelo de culto estabelecendo que os espíritos de antigos escravos africanos e índios, que não encontravam mais em seu próprio meio condições de manifestação e trabalho, seriam bem vindos e poderiam trabalhar livremente não havendo nenhum tipo de discriminação entre raças pois a principal diretriz seria a do amor fraterno (Caridade). Nesse dia também orientou para que os trabalhos tivessem início às 20h com término, se possível, às 22h com os médiuns todos vestidos de branco (elemento que pela primeira vez foi tido como importante num modelo de espiritismo) onde todos os atendimentos seriam gratuitos. Assim como no dia anterior quando deu a conhecer o seu nome ele revela a denominação do novo culto: UMBANDA, a manifestação do(s) espírito(s) para a caridade. A casa onde se dariam os trabalhos seria chamada de Tenda Nossa Senhora da Piedade, pois assim como a Mãe de Jesus o acolheu nos braços ali seriam acolhidos todos os filhos que necessitassem de ajuda ou conforto. Saliento aqui, mais uma vez, a utilização simbólica de denominações onde cada termo reflete profundamente a filosofia e fundamentos dos seus elementos.

No segundo momento do mesmo dia se manifesta um Preto-Velho chamado Pai Antônio que chamou a atenção pela sua fala mansa, humildade e timidez aparente e surpreende o público quando diz: “Nêgo num senta não meu sinhô, nêgo fica aqui mesmo. Isso é coisa de sinhô branco e nêgo deve arrespeitá” e continuou “Num carece preocupá não. Nêgo fica no toco que é lugá di nego”. Indagado por alguém se necessitava de algo afirma: “Minha caximba. Nêgo qué o pito que deixou no toco. Manda mureque busca”. Essas palavras de Pai Antônio demostram a humildade e simplicidade que pauta a linha dos Pretos-Velhos, onde a sua vivência e sabedoria supera todas e quaisquer dificuldades que possam ter sentido em vida e além disso se colocando à disposição para ajudar, orientar e confortar os necessitados que sofrem em vida assim como sofreram um dia. Pai Antônio como bom conhecedor do uso de elementos mágicos introduziu dois elementos de trabalho na Umbanda o fumo, com seu cachimbo, e foi a primeira entidade a solicitar a confecção de uma Guia.

Também há o registro posterior da manifestação de uma entidade com grandes conhecimentos de magia, o Caboclo Orixá Malé, seu trabalho consistia na desarticulação dos trabalhos de feitiçaria que eventualmente estivessem atuando nos consulentes. É importante salientar que em todos os pontos dessa história as determinações, ensinamentos e trabalhos sempre foram orientados e realizados por entidades, nunca por pessoas. Aqui temos mais um aspecto importantíssimo desse movimento: o trabalho sempre converge para os Guias e Protetores, onde eles diagnosticam e tratam da melhor maneira possível caso por caso ou deixam instruções muito claras de como o médium/dirigente dever proceder.

* Confraria dos Espíritos Ancestrais: é constituída dos espíritos mais antigos e elevados do planeta. Foram os primeiros a conseguirem esgotar o seu karma individual pelas inúmeras reencarnações na Terra. Cabe salientar que esse grupamento de espíritos passaram por diversas raças e povos onde cada uma propiciou experiências e situações necessárias para a superação de suas pendências espirituais, assim mais uma vez a necessidade de um modelo espírita universalista se justifica.

** W. W. da Matta e Silva: autor de diversos livros de Umbanda que fundamentaram a prática da Umbanda Esotérica, que se caracteriza pelo aprofundamento teórico-prático dos fundamentos de magia por parte de seus praticantes. Foi o médium que plasmou entre nós a respeitável Raiz da Guiné.

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